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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Hemeroteca da Biblioteca Nacional

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Foi-se o martelo

 Eurípedes Alcântara

              Os ingleses são apaixonados por história. A Inglaterra deu ao mundo extraordinários historiadores. Edward Gibbon produziu no século XVIII a narrativa definitiva do declínio e queda do Império Romano. No século seguinte. Macaulay escreveu uma história da Inglaterra que ainda não foi superada. Muitos outros se ombrearam com esses em pesquisas e relatos rigorosos, originais.- honestos e sagazes da história contemporânea. Alan John Percivale Taylor. Hugh Redwald Trevor-Hoper, Amold Toynbee, para citar alguns poucos. Eric Hobsbawm, morto aos 95 anos na semana passada, não forma nesse time por ter deixado sua devoção religiosa ao marxismo embaçar sua visão do século XX.
 O marxismo é um credo que tem profeta, textos sagrados e promete levar seus seguidores ao paraíso. Os poucos sistemas políticos erguidos sobre essa fé desapareceram. Sobraram umas ilhas de miséria insignificantes. Como todas as teocracias, os governos marxistas foram ditatoriais, intolerantes, rápidos no gatilho contra quem discordava deles — foram estados assassinos. O escritor inglês H.G. Wells, autor de A Guerra dos Mundos, descreveu o alemão Karl Marx (1818-1883) como "uma mente de terceira, postulador de uma tese de segunda, propagandeada por fanáticos de primeira".
 Hobsbawm teve a chance de presenciar evidências concretas de seus equívocos. Ele testemunhou o desmoronamento do comunismo, com a implosão do sistema soviético no começo da década de 90. Só muitos anos mais tarde admitiu que, por ter sido tão completo o colapso da União Soviética, "parece agora óbvio que a falha estava embutida no empreendimento desde o começo". O encadeamento dedutivo lógico, racional, dessa constatação só podia ser o reconhecimento de que sua própria obra tinha uma falha estrutural de nascença - a cegueira aos crimes do comunismo. Mas fé e razão não andam juntas. Van Gogh foi um louco que pintava nos momentos de lucidez. Emest Hemingway era um porre quando bebía—e entornava —, mas escrevia sóbrio. Hobsbawm foi um comunista que fez coisas notáveis quando lúcido. Os filósofos Isaiah Berlin e Leszek Kolakowski demonstraram que o marxismo atua no mesmo nível mental da transcendência, área distante da que processa os pensamentos e atos racionais. Isso explicaria por que, mesmo morto e enterrado como teoria e prática, o marxismo sobrevive como igreja — ou igrejinha, quando instalado em círculos acadêmicos. Cardeal da seita. Hobsbawm tinha convicções impermeáveis aos fatos e à lógica.
 Karl Marx se acreditava um observador científico da realidade cujas afirmações sobre a superação do capitalismo pela revolução comunista não eram meras previsões. Eram profecias. A classe operária ficaria tão numerosa e miserável que tomaria inevitável o confronto vitorioso final com a burguesia. Algo deu errado. Em vez de empobrecerem, os operários foram ficando mais ricos - muito mais ricos do que seus antepassados jamais sonharam. Os países europeus, alvo de Marx, aplacaram a radícalidade das massas com reformas e assistência social.
 Marx recebeu uma carta de Friedrich Engels, o amigo que o sustentava com a mesada do pai, rico industrial alemão. A carta era um lamento desesperado: "Os proletários ingleses estão se tomando mais e mais burgueses, mais burgueses do que os de qualquer outra nação: nós temos agora uma burguesia aristocrata e também uma burguesia proletária". É desconhecida a reação de Marx ao choque dado por Engels, mas nas religiões a realidade não tem valor de convencimento. Os crimes cometidos por líderes e seu aparato de eliminação dos adversários (e dos aliados incômodos), a derrocada moral e material da seita? São eventos insignificantes para os convertidos.
 A Igreja Católica encontrou uma saída para explicar um papa como Alexandre VI (1492-1503), nobre poderoso que comprou sua eleição e transformou o trono de Pedro em testemunha de esbór-nias, bacanais e crimes. Os pensadores católicos argumentam que ter sobrevivido a Alexandre VI é mais uma prova da origem divina da Igreja. Hobsbawm também sacralizou o comunismo para não enxergar seus erros. Seus livros que tratam da história contemporânea trazem uma coleção disciplinada, fervorosa e ardente de justificativas das atrocidades comunistas — missão a que ele se entregou valendo-se de omissões, evasões, contradições e circunavegações.
 É discutível se alardear a própria desonestidade intelectual é uma atenuantes do vício, mas Hobsbawm nada fez para esconder que seus compromissos ideológicos estavam acima do dever de relatar a história com objetividade e rigor. Quando o fato é prejudicial a seu credo, azar do fato. Ele revela talento, capacidade de trabalho e domínio das fontes quando narra a história do século XIX. Essas qualidades desaparecem nos relatos posteriores. Na autobiografia, Tempos Interessantes: uma Vida no Século XX, ele faz uma única crítica contundente à União Soviética: lamenta que os interesses do estado soviético tenham atrapalhado a busca da utopia comunista. Há certa compostura em sua prosa. Mas proselitismo elegante continua sendo proselitismo. Para defender no livro A Era dos Extremos os massacres cometidos por seu santo de devoção, o ditador soviético Josef Stalin, ele se sai com esta: "Nas condições existentes nos anos 1930, o que Stalin fez na Rússia, por mais chocante, foi um problema russo, enquanto o que Hitler fez foi uma ameaça para todo o mundo". Isso é clássico Hobsbawm. Ele finge se chocar com as atrocidades de Stalin, mas põe todo o foco sobre os crimes de outro facínora, Hitler. Se Hitler foi pior do que Stalin é uma discussão que eles mesmos devem estar travando até hoje no anel interior do sétimo círculo do inferno de Dante. (Quem sabe Hobsbawm não se encontra com Marx na quarta cova do oitavo círculo.)
 O fato é que Stalin se aliou a Hitler em 1939 para juntos saquearem e dividirem a Polônia entre eles. Quem se informar sobre o episódio pelo catecismo de Hobsbawm não vai saber que a aliança nazicomunista se deu com o objetivo geo-político de pilhar a Polônia e dominá-la para sempre, com a eliminação de sua elite militar. Essa diretiva macabra foi levada a cabo no que se conhece hoje como o Massacre da Floresta de Katyn. Ali, a mando de Stalin, um a um, 20000 oficiais poloneses foram mortos com tiros de pistola. Na falta de munição os carrascos soviéticos os estrangulavam com torniquete. Cúmplice, Hobsbawm diz apenas que "a União Soviética se recusou a continuar se opondo a Hitler".
 Hobsbawm fingiu que não eram com ele a censura, as execuções sumárias da polícia política, os gulags, silêncio sobre a operação planejada de matar de fome, por vingança, duas dezenas de milhões de habitantes da Ucrânia, um dos mais odiosos processos conduzidos por Stalin. Tal barbaridade seria repetida mais tarde por Mao Tsé-tung na China e Pol Pot no Camboja, genocidas que ele também bajulou.
 No ardil mais tosco de que se tem notícia de alguém com reputação de grande intelectual, ele pôs a culpa dos crimes comunistas... em quem? Ora, no capitalismo: "Como resultado da quebra da economia do Ocidente (a depressão dos anos 30), nós ficamos com a ilusão de que até mesmo aquele sistema brutal, experimental, funcionaria melhor do que o adotado no Ocidente. Era aquilo ou nada". Poderia ser uma opinião razoável na década de 30. Continuar propagando-a durante cinco décadas é fraude. Quando Nikita Kruschev revelou, em 1956, a real extensão da loucura assassina do stalinismo, Hobsbawm correu a condenar... quem? Kruschev, ora!
 Em certos momentos ele chegou ao nível da loucura. Conta o escritor inglês David Pryce-Jones que, na mesa de jantar de um amigo comum, Hobsbawm, que era judeu, sugeriu acabar com a tensão no Oriente Médio "jogando uma bomba atômica em Israel". Em uma notória entrevista televisiva, o canadense Michael Ignatieff perguntou-lhe se o assassinato de 20 milhões de pessoas por Stalin e os 55 milhões a 65 milhões de vítimas de Mao Tsé-tung na China teriam sido justificados caso a utopia comunista tivesse se concretizado. Hobsbawm respondeu: "Sim".
 Deus expulsou Adão e Eva do paraíso, mas o comunismo prometia nada menos que a reconquista do éden. Nos textos sagrados, a descrição do paraíso é sempre nublada, misteriosa. Com o marxismo não foi diferente. Como seria o paraíso comunista? Marx, escritor prolixo, descreveu-o brevemente uma única vez: "Na sociedade comunista, onde ninguém tem uma esfera exclusiva de atividades, a sociedade regula a produção em geral e isso toma possível à pessoa fazer uma coisa hoje e outra amanhã, caçar de manhã, pescar à tarde, criar gado de noite, escrever críticas literárias depois do jantar, exatamente o que eu pretendo fazer, sem nunca me tomar caçador, vaqueiro ou crítico". Não se sabe por que no paraíso comunista a caça&pesca é vital e o gado é albino, já que deve ser criado no escuro.
 Mas será que, em nome dessa fantasia. teria sido mesmo necessário produzir um himalaia de cadáveres de inocentes? Que motivos levam gente até bastante ilustrada a acreditar nessa es-catologia pueril? A fé. O fanatismo com que encampam dogmas comunistas tais como "a moralidade é uma ilusão" ou "a ética é uma arma da elite dominante". (Isso lembra algo e alguém no Brasil de agora?) Tantas mortes, tanta miséria intelectual e moral para quê? Para podermos pescar, caçar e criar gado à noite, ora!

 REVISTA VEJA, 08/10/2012

Uma carteirada histórica


HISTÓRIAS QUE VIRAM MEMÓRIAS



Rio, anos 70 

MARCUS GASPARIAN


Eu TINHA uns 14 anos quando deparei com aquela figura esguia, pele extremamente branca, óculos fundo de garrafa, sentada à mesa do café da manhã da minha casa. Pedi desculpas por estar de pijama, e ele respondeu, com um sorriso e o mais britânico dos sotaques, que não havia problema. Mais um daqueles professores ingleses amigos de meu pai, pensei.

Não foi das maneiras mais brilhantes de conhecer o extraordinário historiador Eric Hobsbawm, que morreu nesta semana, aos 95 anos. Mas refletia bem o clima descontraído de suas estadias em nossa casa no Rio, na década de 70, quando meu pai começou a editar seus livros na Paz e Terra, e em São Paulo, nos anos 80.

Para mim, ele não era mais que um amigo gente boa dos meus pais. Isso até eu descobrir, pelos amigos barbudos da minha irmã, que tínhamos um ídolo dormindo no quarto ao lado. Ao me ouvirem dizer que Hobsbawm estava em casa, os colegas de Helena na faculdade de história da PUC arregalaram os olhos e ameaçaram invadir nossa casa para ouvir o mestre.

Às noites, quando chegavam os convidados para os jantares que meus pais ofereciam ao ilustre hóspede, as coisas ficavam mais animadas. A mistura era geral. É incrível lembrar agora Hobsbawm em nossa casa junto com figuras como Millôr Fernandes, Flávio Rangel, Fernando Pedreira, Fernando Henrique Cardoso, Oscar Niemeyer (que o historiador adorou conhecer), Luciano Martins, Gerardo Melo Mourão e Moacyr Werneck de Castro, entre outros, em clima tão descontraído.

"Por favor mande minhas lembranças aos Callado, se voltar a vê-los, e a Darcy Ribeiro, Niemeyer e outros que encontrei (ou reencontrei) graças a vocês", escreveu ele para minha mãe, Dalva, em maio de 1978, após uma das visitas.

Na carta, pediu desculpas ao meu pai, Fernando, por ter "passando tempo demais curtindo e descansando e tempo de menos nas atividades -leituras, entrevistas etc.-que ele poderia esperar de mim". "Como você sabe", justificou, "o Rio e a casa dos Gasparian não encorajam o trabalho".

Em outra carta, galante, ele comentava que tinha conhecido minha irmã Laura, "tão charmosa e esperta e bonita quanto a primeira [Helena]. Qual sua fórmula secreta para trazer ao mundo crianças que crescem tão perfeitas?"

Hobsbawm era animação pura, ficava sempre até o fim da festa. Os tempos ainda inspiravam cuidado, pois o jornal "Opinião", editado pelo meu pai, e que publicara os primeiros textos do Hobsbawm no Brasil, sofria censura e era seguidamente recolhido das bancas.

Dez anos depois, já trabalhando na Paz e Terra, que editava quase toda a sua obra, voltei a encontrá-lo. Nós publicamos inclusive a magistral coleção "História do Marxismo", em 12 volumes, que ele havia organizado.

Foi nessa época que percebi a extrema atenção que ele destinava à causa trabalhista. Por conta da idade avançada, o historiador preferia não aceitar convites para falar em universidades e outros locais nobres, mas nunca recusava um chamado para falar a trabalhadores em algum sindicato.

Alguns anos à frente, quando voltou ao país para o lançamento de "Pessoas Extraordinárias" (2000), deu uma longa entrevista à Folha. Naquele fim de semana, ele e eu acordamos cedo no sábado para viajar com minha irmã e seus filhos ao litoral norte de São Paulo.

No caminho fomos parados pela Polícia Rodoviária, que me pediu os documentos do carro, e percebi que tinha os esquecido em casa.

Tentei conversar com o oficial. Sem conseguir contornar a situação, peguei a Folha para mostrar que eu transportava uma pessoa importante -na primeira página da edição daquele sábado, havia uma grande foto de Hobsbawm. Após uma longa encarada típica de autoridade, o homem nos liberou. Em vez de ficar chateado com o contratempo, Hobsbawm achou graça. Foi literalmente uma carteirada histórica

Hoje, a obra de Eric Hobsbawm é admirada não só pelos barbudos dos anos 70 como por todos aqueles que, independentemente da ideologia, buscam um pensamento universal para entender o mundo moderno. É uma tristeza que tenhamos perdido, além desse amigo tão amável, um pensador dessa qualidade.

FOLHA DE S. PAULO, 07/10/2012

Biologia de longo alcance

Editorial


O ano de 1962 não teve só a estreia de James Bond no cinema, da canção "Love me Do", dos Beatles, e da bíblia ambiental "Primavera Silenciosa", de Rachel Carson.

Exatos 50 anos atrás, conferia-se também o Prêmio Nobel em Medicina a Francis Crick, James Watson e Maurice Wilkins, pela descoberta da estrutura do DNA, que iniciou a revolução da biologia molecular.

Naquele mesmo ano, John B. Gurdon realizava o experimento que lhe daria o Nobel em Medicina de 2012. E, no Japão, nascia Shinya Yamanaka, o outro laureado.

Os feitos do britânico e do japonês marcam os extremos do avanço vertiginoso da biomedicina na segunda metade do século 20: da simples biologia celular à capacidade de ajustar a sintonia fina da célula para mudar seu destino.

Gurdon provou que era possível reprogramar uma célula especializada do corpo e fazê-la recuar ao próprio passado. Tomou um óvulo de rã, retirou-lhe o núcleo e substituiu-o com o de uma célula do intestino do animal adulto; o constructo, como se fosse um óvulo fecundado, desenvolveu-se num embrião e originou um girino sadio.

Em 1996, técnica similar permitiu gerar a ovelha Dolly, primeiro clone de mamífero -e bem mais célebre, pela aversão moral à clonagem de um animal mais evoluído.

Se Gurdon forneceu a prova de princípio da reprogramação celular, Yamanaka a levou às últimas consequências. Ativando os genes certos, conseguiu reverter células à sua condição mais fundamental, a de célula-tronco pluripotente.

Essas unidades guardam a capacidade de originar qualquer célula do corpo, o que as torna especialmente atraentes para desenvolver terapias regenerativas. Até o advento da técnica japonesa, porém, as células-tronco só podiam ser obtidas com a destruição de embriões, o que suscitava intermináveis controvérsias.

Com as chamadas células pluripotentes induzidas de Yamanaka, a limitação desapareceu. Foram, por isso, festejadas pelos inimigos das células-tronco embrionárias, cuja obtenção era equiparada ao aborto ("assassinato" de embriões, ainda que estivessem congelados em clínicas de fertilização).
O Nobel para Yamanaka, de certa forma, lhes dá razão. Mas a divisão do prêmio com Gurdon serve para assinalar que ambos os estudos integram um longo arco de intromissões da técnica no recesso do organismo, cujo potencial polêmico está longe de esgotar-se.

FOLHA DE S. PAULO, 11/10/12

A morte da Europa que amo

Janer Cristaldo

Desde Rushdie, o islã crê que o mundo está sob sua jurisdição. Na Europa, imigrantes trocam a lei local pela sharia. Não viverei para ver a 'Eurábia', ainda bem 

Ao não cortar relações diplomáticas com o Irã, em 1989, quando o aiatolá Khomeini decretou uma fatwa condenando Salman Rushdie à morte pela publicação de "Versos Satânicos", os países europeus perderam uma oportunidade única de evitar os conflitos hoje provocados pelos muçulmanos na Ásia, Oriente Médio e Ocidente.

Do alto de seus minaretes, o aiatolá condenou um estrangeiro, residente em país estrangeiro, por um ato cometido no estrangeiro e que no estrangeiro não constitui crime. Khomeini legislou urbi et orbi e o islã pegou gosto pela abrangência de sua jurisdição.

Se migrantes de todos os quadrantes normalmente se adaptam à cultura europeia, há um imigrante particular que não só causa problemas na Europa como quer dominá-la culturalmente. São muçulmanos, que querem instituir no continente suas práticas, muitas vezes tipificadas como crime nas legislações nacionais.

Uma é a excisão do clitóris e infibulação da vagina. Médicos europeus chegaram a propor um pequeno corte simbólico no clitóris, para aplacar a misoginia islâmica. Outra é o véu. Na Itália, migrantes árabes pretenderam que mulheres tirassem documentos de identidade... veladas.

Muçulmanos têm grande dificuldade para aceitar as leis dos países que os acolhem. Em plena Espanha, há tribunais islâmicos clandestinos. A primeira corte ilegal, descoberta na Catalunha, operava como em um país muçulmano, com a aplicação do rigor da sharia. O tribunal foi revelado em dezembro de 2009, quando a Justiça da região de Tarragona indiciou dez imigrantes por liderar uma corte que teria sentenciado à morte uma mulher muçulmana.

Na Grã-Bretanha, a sharia começa a ser usada para resolver disputas familiares e pequenas causas. O primeiro tribunal foi identificado em 2008, mas opera desde 2007. Na Escandinávia, um muçulmano, junto com seus filhos, executou uma filha porque esta tinha relações antes do casamento com um sueco. Não foi preciso tribunal algum. A família se erigiu em tribunal. Há muitos outros casos pela Europa.

A Europa é leniente. Em 2007, a juíza Christa Datz-Winter, de Frankfurt, negou o pedido de divórcio feito por uma mulher muçulmana que se queixava da violência do marido. A juíza declarou que os dois vieram de um "ambiente cultural marroquino em que não é incomum um homem exercer um direito de castigo corporal sobre sua esposa". Quando a mulher protestou, Datz-Winter citou uma passagem do Corão: porque "os homens são encarregados das mulheres".

Na Finlândia, imigrantes somalis protestam por seus filhos estarem sendo educados por professoras. Porque um jovem macho somali não dirige a palavra a uma mulher.

Na Suécia, que nos anos 1970 gozou a fama de paraíso do amor livre, o atual número de estupros per capita coloca o país apenas abaixo do Lesotho, na África. De lá para cá, o país foi invadido por muçulmanos. Segundo Ann-Christine Hjelm, advogada que investiga crimes na Suprema Corte sueca, 85% dos estupradores condenados no tribunal nasceram em solo estrangeiro ou são filhos de pais estrangeiros.

Em 2004, os jornais nórdicos noticiaram que um mufti chamado Shahid Mehdi declarou em Copenhague que mulheres que não portam véus estão "pedindo para serem estupradas". Para estes senhores, uma mulher sueca independente é apenas uma "puta sueca".

Mas, claro, não se pode estuprar uma árabe. Entrevistado pelo "Dagens Nyheter", principal periódico sueco, Hamid, membro de uma gangue de violadores, justificou: "A sueca recebe um monte de ajuda depois, além disso ela já transou antes. Mas a árabe tem problemas com sua família. Para ela, é uma grande vergonha ser violentada. Para ela, é importante ser virgem ao casar".

No Reino Unido, França e Espanha, muçulmanos lutam contra a presença de cães nas cidades. Porque o profeta não gostava de cães.

Os atuais distúrbios em função de um filmeco americano sobre Maomé, que não fere lei alguma no Ocidente, refletem a leniência com que a Europa tem tratado os muçulmanos. O islã quer determinar que tipo de arte o Ocidente pode produzir. Já condenaram Rushdie à morte. O tradutor de "Versos Satânicos" para japonês foi assassinado. Sobreviveram os tradutores ao italiano, esfaqueado, ao norueguês, baleado, e o editor turco, que se hospedou em um hotel que foi incendiado.

Em 2004, o cineasta Theo Van Gogh foi assassinado em Amsterdã por ter dirigido "Submissão", filme sobre a situação da mulher nas sociedades islâmicas.

Como boi que ruma ao matadouro, a Europa está se rendendo às aiatolices de fanáticos que ainda vivem na Idade Média. Já se fala em uma "Eurábia" daqui a 50 anos. Ainda bem que não estarei lá para testemunhar a morte de uma cultura que tanto amo.

JANER CRISTALDO, 65, doutor em letras francesas e comparadas pela Universidade de Sorbonne Nouvelle (Paris 3), é tradutor e jornalista

FOLHA DE S. PAULO, 26/09/12.

[tese] Prova de artista

[Sobre como funcionam os movimentos e como os artistas se inserem neles sem nem mesmo saberem disso]

MARCIO AQUILES
DE SÃO PAULO

Vida e obra do gravurista pernambucano Gilvan Samico, um dos principais nomes do Movimento Armorial, são registradas em livro

Foto Divulgação


A vida e a obra do artista Gilvan Samico, 83, um dos gravuristas mais importantes da história da arte contemporânea brasileira, podem ser conferidas pela primeira vez em livro, em uma edição de luxo publicada pela editora Bem-Te-Vi.

Autor de peças expostas no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) e na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, o pernambucano vive hoje afastado das badalações e fatuidades dos grandes centros urbanos.

Ao lado de sua mulher, Célida, a quem o livro é dedicado, mora e trabalha em um casarão do século 17, na cidade de Olinda (PE).

Samico foi o principal expoente do Movimento Armorial nas artes plásticas.

No prefácio do livro, Ariano Suassuna classifica o trabalho dele como decisivo no estabelecimento da poética do projeto, enfatizando o engrandecimento do grupo com sua presença.

A adesão à cena deu-se por meio de um convite feito por Ariano Suassuna, em 1971, ano em que Samico voltava de uma temporada de dois anos na Europa.

"Eu nem sabia que havia um movimento que tinha sido deflagrado pelo Ariano", diz o artista. "Ele [Suassuna] me disse: 'Eu inaugurei o Movimento Armorial e você faz parte dele'. Eu respondi: 'Então você me explica o que é, para eu saber do que eu faço parte'.", afirma.

IMAGÉTICA
No início da década de 1960, após ter sido aluno de grandes mestres como Lívio Abramo e Oswaldo Goeldi, Samico procurou Ariano Suassuna em busca de uma opinião sobre aspectos visuais de seu trabalho.

"Minha gravura era muito noturna, com influência do expressionismo. Mas era um expressionismo lírico, sem o pessimismo que essa escola de arte utilizava", explica.

Por sugestão de Suassuna, começou então a usar elementos do romanceiro popular nordestino. Os profetas, pássaros de fogo, dragões, serpentes e outros animais encantados oriundos do cordel e dos folhetins passaram a permear amiúde a sua obra.

"Fiz o que podia para dar uma roupagem erudita a essa linguagem popular. O mito me interessa mais do que a possível realidade de uma lenda", diz Samico.

Se certo minimalismo gráfico salta aos olhos num primeiro contato com sua obra, uma segunda contemplação mais apurada revela complexas camadas de significação.

O crítico de arte Weydson Barros Leal, autor do texto e curador do livro, destaca as sutilezas do artista.

"Samico desenvolveu uma arquitetura que extrapola a cena pictórica, por meio da criação de planos justapostos que são áreas de tempo narrativos, e não apenas divisões plásticas", afirma.
Outra referência imagética importante em seu trabalho é a trilogia "Memória do Fogo", do escritor uruguaio Eduardo Galeano, utilizada pelo artista como fonte de símbolos e personagens.
Barros Leal destaca as transformações no processo criativo do gravurista.

"A gravura dele começa goeldiana, bastante escura, e vai clareando até encontrar sua própria linguagem. O mais impressionante é que o apuro e a exatidão de seu traço permanecem intactos."

ENGENHOSIDADE
Buscando aperfeiçoar questões técnicas, Samico também desenvolveu inovadores engenhos e ferramentas, como a goiva, instrumento que não permite que o fio da madeira enrole e cubra o desenho, enquanto a superfície da placa é cortada.

"Gosto de dedicar um tempo desenvolvendo novas ferramentas e técnicas que irão servir ao meu trabalho", conta Samico.

Segundo Barros Leal, essas ferramentas são importantes para o alto grau de precisão exigido por sua arte.

"Sua inteligência prática para desenhar ferramentas é universal. Ele é um exímio desenhista industrial com qualidades 'davincianas'[em referência ao pintor Leonardo da Vinci], dono de uma genialidade múltipla singular."

SAMICO
AUTOR Weydson Barros Leal
EDITORA Editora Bem-Te-Vi
QUANTO R$ 190 (196 págs.)

FOLHA DE S. PAULO, 21 de fevereiro de 2012.